lentamente abro os olhos e lentamente levanto a cabeça colada à almofada e limpo o fino fio de baba do canto da boca e suspiro primeiro ao de leve e depois com mais intensidade. sou a preguiça e fico na cama enroscado e quentinho enquanto ouço na rua o dia a começar.
arrasto-me a mim e aos meus ossos para fora da cama enquanto por lá deixo a alma e o pensamento. do outro lado da parede vem um chamamento cheio de uma energia que só as crianças que dormem sei lá bem 10 ou 11 ou 12 horas parecem ter. papá, papá. esfrego a cara e os olhos e dobro a ombreira da porta e espreito para dentro do quarto onde eles dormem e sou recebido com sorrisos capazes de desarmar toda a tristeza do mundo. papá. sorrio e rio e por momentos nada mais existe. sou a felicidade.
entro no carro e ligo o rádio e vou trabalhar. ouço as pessoas a falar comigo e ouço-me a mim a falar com as pessoas. explico coisas e elas dizem que sim com a cabeça mas provavelmente não querem saber e por sua vez explicam coisas e eu digo que sim com a cabeça mas não quero mesmo saber. sou o tédio.
meto a chave na porta e ainda não entrei totalmente e já volto invariavelmente a ouvir o mesmo grito que de manhã. papá, papá. respiro bem fundo e relaxo imediatamente mesmo sabendo que às vezes ainda falta dar-lhes banho e que quase sempre ainda falta dar-lhes de comer e que depois disso ainda falta pô-los na cama. e que no meio destas coisas todas que às vezes faltam há momentos de pura alegria e outros ocasionais de pequenas guerras e mini-dramas de fitas e de choros. irrito-me com eles e irrito-me mais ainda comigo e com a minha falta de paciência. sou a ira.
e sou um gajo solteiro que chega a casa e se senta no sofá a ver futebol e a beber uma cerveja com tremoços e amendoins. sou a inveja.
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário