wolverine

11.10.11

...

vivia só,
sozinho ele e o frigorífico branco,
e os seus livros.

comia no microondas
aquecidos os enlatados e
as ervilhas,
mas estas absolutamente verdes e cruas.

as mágoas,
que as tinhas muitas e profundas,
partilhava com as surdas putas
que de tempos a tempos fodia,
e a quem contava pequenas histórias,
grandemente inventadas.

um dia, outono há muitos anos,
de outubro,
teve um peixe vermelhinho,
curiosamente bizarro, porque nadar não nadava,
por medo de se afogar para sempre.

e portanto,
livre da ânsia de ter o que fazer,
só boiava
e nunca ia para a parte funda do aquário.

gordo de comida e de água,
largou já farto a vida
e morreu,
pelo expresso branco de porcelana.

o homem chorou,
lágrimas em número primo,
que escorreram salgadas.

e assim, ausente de futuro,
naquela casa vivia,
sozinho,
um homem que por nada ter
se sentia feliz

8.2.11

...

andamos tão embrenhados com os facebooks e os twitters e o wikileaks, que se começa a criar a ideia de que tudo o que não existe neste admirável mundo novo não conta. convém não esquecer por exemplo que as revoluções no mundo árabe podem tirar partido destas tecnologias mas foram despoletadas por uma razão tão real e tão prosaica como um aumento brutal no preço dos alimentos na tunísia.
até os romanos sabiam que as massas se controlavam primeiro com pão e só depois com circo.

10.1.11

to do list.



...



rita.

...
sabes isto, rita?
sabo.

trouxeste aquilo, rita?
trouxi.

rita.

senta-se na sanita e tem sempre um livro numa mão enquanto a outra a ajuda a não cair para o rio lima e quando se sente bem instalada vira-se para nós e diz leias, leiasme o livo po favor.

27.12.10

joão e rita.

a rita está sentada à mesa e vai começar a comer a sopa e o joão puxa a sua cadeira para se sentar e a rita diz-lhe apontando para um dos pratos que a ana já pôs na mesa:
- olha joão, são bóculos, xabias?
- sim, claro, mas não são bócolos, são brócolos. ora diz brócolos.
- bócolos.
- não, rita. BRÓcolos.
- bócolos.
- olha rita, diz BRO.
- colos.
- não. diz BRO.
- colos.
- não, não, rita. diz só BRO.
- colos.
- oh, deixa estar...

10.2.10

joão.

papá, já sei ler. e depressa.
eu sei. e é muito fixe saber ler, saber o que dizem os livros.
sou o único menino na minha sala que sabe ler. nenhum dos meus amigos sabe.
eh,...joão, olha que eu não quero que tentes gozar com os teus amigos por causa disso. é muito chato fazer isso, ok?
ok, papá. eu tenho é que ensiná-los.
joão, eles também vão aprender a ler, cada miúdo tem os seus ritmos... não te esqueças de não te pores a gozar com eles tipo eu sei ler e vocês não, ok?
sim, papá, ok. sabes que o pedro é o único menino na minha sala que já tem 5 anos?
ah, não sabia.
mas é. achas mais interessante ser o único menino que já tem 5 anos ou ser o único menino que já sabe ler?
...

5.1.10

...

lentamente abro os olhos e lentamente levanto a cabeça colada à almofada e limpo o fino fio de baba do canto da boca e suspiro primeiro ao de leve e depois com mais intensidade. sou a preguiça e fico na cama enroscado e quentinho enquanto ouço na rua o dia a começar.
arrasto-me a mim e aos meus ossos para fora da cama enquanto por lá deixo a alma e o pensamento. do outro lado da parede vem um chamamento cheio de uma energia que só as crianças que dormem sei lá bem 10 ou 11 ou 12 horas parecem ter. papá, papá. esfrego a cara e os olhos e dobro a ombreira da porta e espreito para dentro do quarto onde eles dormem e sou recebido com sorrisos capazes de desarmar toda a tristeza do mundo. papá. sorrio e rio e por momentos nada mais existe. sou a felicidade.
entro no carro e ligo o rádio e vou trabalhar. ouço as pessoas a falar comigo e ouço-me a mim a falar com as pessoas. explico coisas e elas dizem que sim com a cabeça mas provavelmente não querem saber e por sua vez explicam coisas e eu digo que sim com a cabeça mas não quero mesmo saber. sou o tédio.
meto a chave na porta e ainda não entrei totalmente e já volto invariavelmente a ouvir o mesmo grito que de manhã. papá, papá. respiro bem fundo e relaxo imediatamente mesmo sabendo que às vezes ainda falta dar-lhes banho e que quase sempre ainda falta dar-lhes de comer e que depois disso ainda falta -los na cama. e que no meio destas coisas todas que às vezes faltam há momentos de pura alegria e outros ocasionais de pequenas guerras e mini-dramas de fitas e de choros. irrito-me com eles e irrito-me mais ainda comigo e com a minha falta de paciência. sou a ira.
e sou um gajo solteiro que chega a casa e se senta no sofá a ver futebol e a beber uma cerveja com tremoços e amendoins. sou a inveja.

11.12.09

joão.

deitado na cama abraça a ana e põe-lhe as mãos nas bochechas e é com o ar mais doce do mundo que diz,
eu amo-te, mamã.
eu também te amo, joninhas.
mas eu amo-te muito, mamã.
onde é que aprendeste isso?
na televisão. o que é que quer dizer?

joão.

pai, posso ver futebol contigo?
claro, jonas.
quem são os pretos?
a académica.
e os vermelhos?
o benfica.
e aqueles senhores de amarelo?
os árbitros.
e aquela menina, o que é que faz?
eh, ...está lá para dar as boas vindas aos jogadores.
é gira ela, não é papá?
sim, é mais ou menos gira.
eu acho que ela é muito gira.
está bem.
e sei o que tu gostavas de fazer com ela.
como? o que é que tu disseste?
eu sei o que tu gostavas de fazer com ela.

por momentos fico calado e olho para a ana e a ana olha para mim e olhamos os dois para ele e é com algum medo que digo,

diz lá então.
gostavas de a comer assada no forno com batatinhas.

7.10.09

punch line

fala como quase todos os padres falam e fá-lo num ritmo pausado e com um sotaque carregado, metade sopinha de massa, metade beirão, um terço minhoto. fala e principalmente adjectiva e superlativa. as condolências são as mais sinceras e os sentimentos os mais veementes e os pesâmes os mais sentidos. compreende a dor da famíla perante o triste desenlace e faz as pausas necessárias para o seu rebanho entranhar a solenidade do momento. mas alegremos-nos irmãos diz ele. mas alegremos-nos porque este nosso irmão já partiu para uma vida melhor.

25.4.09

...

nove da noite e a rita já dorme e o joão já acabou de comer há um pedaço e agora quer brincar antes de ir dormir, o que segundo ele é sempre uma seca já que nunca tem sono. cumprindo um ritual recente que confesso talvez me agrade um pouquinho mais a mim que a ele, o tipo vira-se e diz:

papá, vamos jogar umas cartolas.
umas cartadas?
sim, umas cartadas. ou duas ou três.
não jonas, só uma e depois cama, ok?
ok.

passa-me para as mãos as cartas do noddy e observa curioso enquanto eu as baralho e distribuo em 3 filas com as faces voltadas para baixo para que depois as possamos virar à vez ora ele ora eu na procura de obter o maior número de pares.
como sempre estico-me preguiçoso no tapete e deito-me de lado apoiado num cotovelo e como sempre ele imita a posição e ri com os dentes e com os olhos enquanto como sempre repete satisfeito uma frase que em tempos me ouviu dizer:

ah, isto é que é vida!

o jogo começa e ele vira cartas na vez dele e eu viro cartas na minha vez e ele ajoelha-se no tapete para chegar melhor à fila mais distante e é neste momento que sem querer dá um sonoro e prolongado traque e imediatamente levanta os olhos para mim e para a ana e nós escondendo a custo o riso lá lhe dizemos que isso não se faz e quando eu lhe chamo puzeteiro já ele se prepara agora de propósito para repetir a façanha e de repente assim quase num abrir e fechar de olhos a expressão dele transforma-se e passa do mais refinado gozo para o mais puro e pleno olhar de pânico que já lhe vi fazer e é com uma voz que soa a medo e a súplica que diz entre dentes, papá, e eu novamente escondendo a custo o riso levanto-me primeiro a mim e depois a ele e é em posição horizontal e empranchada que o levo felizmente para os dois em segurança até à salvação da retrete mais próxima.

p.s.- como acontece em tantas outras situações, também para esta os ingleses têm um termo fabuloso e não traduzível: sharted, ou seja, tried to take a fart and shit came out...enfim...

27.2.09

...


no carro, a caminho do infantário.

papá, vamos jogar um jogo.
está bem. qual?
eu digo marcas difíceis de carros e tu repetes, ok?
ok.
rover.
rover.
volvo.
volvo.
renault.
renault. olha, joão, agora fazemos ao contrário, eu digo e tu repetes, pode ser?
pode ser.
saab.
saab.
kia.
kia.
chevrolet.
chevrolet. papá, já chega. agora vamos mas é jogar com marcas de pessoas.
mas as pessoas não têm marcas.
não têm marcas?
não. têm nomes.
então nomes difíceis de pessoas.
ok. começo eu. albertino, conheces algum?
albertino? conheço, é o da avó antonieta.
exactamente. e antonieta também é um nome difícil.
antonieta.
e arminda, conheces?
sim, avó arminda.
e agora outro difícil que acho que tu não conheces: clementina.
clementina? quem é?
era como se chamava a minha avó.
e onde está ela?
já morreu.
sim, mas onde está ela?
eh, ....há quem ache que as pessoas quando morrem se transformam em estrelas no céu.
e podemos falar com elas?
falar não mas podemos pensar nelas e lembrar-nos das coisas que elas nos diziam. por exemplo sabes aquela música do tão lindinho, tão lindinho, tão lindinho, curucucu?
a da avó guida?
sim. a minha avó clementina era mãe da avó guida e foi ela que nos ensinou essa música.
ah, está bem. e quem é a tua avó agora?

17.2.09

...

hoje no comboio entrei e sentei-me e abri o meu livro e esperei pelo revisor.
ele não veio.
li o meu livro e ele mesmo assim não veio.
cheguei à estação e entrei numa feira de livros usados, que são os que fazem mais sentido, e comprei um por sete euros e meio mas podia ter comprado dois por oito.
hoje no trabalho esperei pelo homem da consulta e ele não veio.

27.1.09

no comboio.

compro o bilhete na máquina que substituiu os senhores nos guichets e entro no comboio e sento-me de frente para a viagem porque senão enjoo e porque me desagrada a ideia de chegar a algum sítio primeiro com o rabo e só depois com o resto de mim.
o revisor que até ver ainda não foi substituído por máquina alguma lá vem mais rápido e afoito do que seria necessário num comboio em andamento e eu mostro o meu bilhete e ele pica-o com o seu picador e faz-me um ligeiro aceno quase imperceptível com a cabeça enquanto mo devolve e eu respondo com um ligeiro aceno quase imperceptível com a cabeça enquanto o recolho.
antes de abrir o meu livro dou uma rápida olhadela para o resto da carruagem e há um casal que me desperta a atenção sendo que provavelmente são pai e filha mas também podem com igual facilidade ser marido e mulher que isto nos dias de hoje já se sabe que é perigoso tirar estas coisas pela pinta e vão ocupados os dois ele com um computador e ela com um livro ou uma revista que eu daqui não consigo ter a certeza e não sou pessoa de me deitar a adivinhar.
começo a ler o meu livro e de tempos a tempos espreito e depois de meia-hora de viagem e de várias espreitadelas tenho uma certeza e uma teoria sendo a certeza que o livro é muito bom e a teoria que são mesmo pai e filha porque não se tocam e não se falam e não se olham e mesmo assim parecem confortáveis ao lado um do outro.
chegamos ao destino e eu levanto-me e lentamente passo por eles e ela afinal está a ler um livro mas eu não descubro qual e eles continuam sentados e confortavelmente em silêncio.

21.1.09

yes we can.




It was a creed written into the founding documents that declared the destiny of a nation.
Yes we can.
It was whispered by slaves and abolitionists as they blazed a trail toward freedom.
Yes we can. Yes we can.
It was sung by immigrants as they struck out from distant shoresand pioneers who pushed westward against an unforgiving wilderness.
Yes we can. Yes we can.
It was the call of workers who organized; women who reached for the ballots; a President who chose the moon as our new frontier; and a King who took us to the mountain-top and pointed the way to the Promised Land.
Yes we can to justice and equality.(yes we can, yes we can, yes we can, …)
Yes we can to opportunity and prosperity.
Yes we can to opportunity and prosperity.
Yes we can heal this nation.
Yes we can repair this world.
Yes we can. Si Se Puede(yes we can, yes we can, yes we can…)
We know the battle ahead will be long, but always remember that no matter what obstacles stand in our way, nothing can stand in the way of the power of millions of voices calling for change.
We want change!(We want change! We want change! We want change…)
We have been told we cannot do this by a chorus of cynics who will only grow louder and more dissonant. We’ve been asked to pause for a reality check. We’ve been warned against offering the people of this nation false hope. But in the unlikely story that is America, there has never been anything false about hope.
We want change!(We want change! I want change! We want change! I want change…)
The hopes of the little girl who goes to a crumbling school in Dillon are the same as the dreams of the boy who learns on the streets of LA; we will remember that there is something happening in America; that we are not as divided as our politics suggests; that we are one people;we are one nation; and together, we will begin the next great chapter in America’s story with three words that will ring from coast to coast; from sea to shining sea - Yes. We. Can.
(yes we can, yes we can, yes we can, …)

antony & the johnsons

20.1.09

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são 8 e meia da madrugada e estou na cozinha com a rita ao colo e portanto com todo o lado esquerdo do tronco ocupado e é só com o braço direito que me dedico a preparar o meu pequeno almoço ou seja a tentar verter para dentro duma caneca um mísero iogurte bom para o colesterol dizem eles mas escandalosamente caro digo eu. lá fora chove cada vez mais e a dona m. pára por momentos de passar a roupa a ferro e vai à janela e abre-a ligeiramente e espreita e diz olha, olha, está a cair granito.

16.1.09

...







...


o legado de bush.

anda por aí uma teoria que defende ser cedo demais para analisar os 8 anos de bush e que diz que só a passagem dos anos e só o eventual desenlace dos conflitos (sim porque há gajos por aí que lhes dá nervos dizer guerras...) no iraque e afeganistão poderá dar a devida medida do papel por ele desempenhado. com o devido respeito não concordo. acho aliás que parte da expectativa desmesurada que recai sobre barack obama tem muito a ver com o total e absoluto desencanto dos últimos anos. desde a mentira da guerra do iraque à tortura de guantanamo e abu ghraib, passando pela desgraça do katrina e pela primeira crise económica verdadeiramente global, não faltam razões para decretar bush como um mau presidente sem precisar de deixar passar umas décadas sobre o assunto.se uma imagem vale mais que mil palavras então george bush deixa para trás centenas de imagens e momentos e esgares faciais, pontuados com frases demonstrativas duma inadequação óbvia entre o homem e o cargo. e não, esta não é a estafada conversa do tipo ser bronco e cowboy e bem, bronco e cowboy. é a simples constatação de que para ser presidente do mais poderoso país do mundo é de facto preciso algo mais do que provavelmente ser uma companhia agradável para beber umas cervejas. e essa distinção entre a forma de ser pessoalmente e a forma de ser profissionalmente é algo que bush nunca fez verdadeiramente.

seinfeld.

"People don't turn down money. It's what separates us from the animals."

15.1.09

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Era uma vez um miúdo que vivia numa longínqua aldeia lá para os lados da mais alta serra do país. Tão longínqua era a dita aldeia que ficava, digamos assim, longe de todas as outras aldeias e vilas e cidades do referido país. Na casa onde tinha nascido e na qual tinha passado todos mas mesmo todos os dias e noites da sua vida moravam também um gato muito muito velho a quem nunca ninguém se tinha lembrado de dar um nome, um cão um pouco mais novo mas ainda assim pró velhinho e que passava o seu tempo a coçar-se e a tentar lamber os próprios testículos, e um senhor de meia idade que desde há muito dava pelo nome de tio apesar de não ser tio de ninguém e muito menos do miúdo em questão. Na aldeia cujo nome não sabemos porque já ninguém o pronunciava, não vivia vivalma, isto com a excepção do tio e do miúdo e do cão e do gato. Não havia escola e não havia café e casa do povo e parque infantil e junta de freguesia, enfim, não havia nada daquilo que normalmente há numa aldeia e que acaba por ser aquilo que de facto torna uma aldeia em aldeia e não noutra coisa qualquer. Restava apenas um edifício quase podre, com uma cruz no topo que denunciava ter sido em tempos uma igreja e ao lado da qual havia um campo salpicado de diversos amontoados de pedras que sugeriam ser este o local do antigo cemitério. Em relação aos pais do miúdo e já agora em relação aos restantes habitantes da aldeia o único que poderia explicar o ocorrido era o tio mas mesmo o tio já não se lembrava bem, à conta de já ter passado muito tempo e diga-se que mesmo que se lembrasse dificilmente poderia contar o estranho sucedido porque à força de não ter ninguém com quem falar também já não se lembrava de muitas das palavras ou sequer de como as organizar em frases. Temos então em resumo e para abreviar o intróito que já vai longo, um miúdo que poderia ter 7 ou 8 anos mas também poderia ter mais ou até inclusivamente ter menos e um tio. Podíamos dizer que viviam um para o outro mas isso seria uma mentira e portanto diremos só que viviam cada um a sua vida e que à conta de morarem na mesma aldeia onde não havia mais ninguém, e na mesma casa onde para além deles só havia o cão e o gato, acabavam por se estar sempre a encontrar. Em qualquer outra aldeia daquele ou de qualquer outro país o tio seria considerado um maluquinho daqueles a quem as pessoas de bem dão esmolas em forma de moedas e de carcaças de pão, menos por pena e mais para parecerem pessoas de bem, mas naquela aldeia o tio era o único adulto e portanto reinava absoluto sobre todas as praças vazias. Deste modo, tudo aquilo que aliás era bem pouco mas adiante, que o miúdo sabia em termos das coisas e da linguagem das gentes tinha sido o tio a ensinar. Como o tio tinha esquecido ou decidido esquecer todos os conceitos que não fossem essenciais, o miúdo desconhecia o que era o bem e o mal, o céu e o inferno, a mentira e a verdade. Moral era coisa que aliás nem sequer se aplicava pela simples razão de que não havia ninguém para julgar nem quase ninguém para ser julgado.Um dia, e como não importa qual nem de que mês nem de ano chamemos-lhe então um qualquer dia-feira, um caixeiro-viajante que como o nome indica ganhava o pão saltando de aldeia em aldeia, perdeu-se tão perdido nas suas andanças pela serra que acabou por encontrar a aldeia desta história. Com uma carroça puxada por uma mula com ar de quem já tinha visto toda a terra até ao fim do mundo e arrebaldes, o caixeiro vendia de tudo um pouco desde óleo de fígado de bacalhau a pomadas e unguentos para todo o tipo de aflições mais ou menos comichosas das partes mais ou menos pudendas, passando por ervas para botar maus olhados, ervas para tirar maus olhados, óculos, monóculos, binóculos, dentaduras, dados, cartas, e mais uma catrafiada de coisas que na sua maior parte pareciam ter sido tiradas de caixotes do lixo. Lentamente e diga-se que um tanto a quanto a medo, o estranho desfile de carroça, mula e caixeiro foi fazendo o seu caminho pelas ruas da aldeia sob o olhar atento das ruínas das casas há muito desabitadas. Chegados à praça central bastou um pequeno grunhido do condutor para que a mula parasse. Surpreendido pela completa ausência de pessoas o caixeiro reprimiu o instinto de se beliscar para confirmar se estava mesmo acordado e, em vez disso, limitou-se a olhar em volta. De repente, tanto assim que direi mesmo repentinamente, surgiu como que nascido das pedras da calçada o miúdo, logo seguido a curta distância pelo preguiçoso do cão e pelo desinteressado do gato. O curioso diálogo que se estabeleceu ali e então entre a incontinência verbal do caixeiro e os longos silêncios do miúdo foi ao mesmo tempo estranho e agradável para cada um deles. O caixeiro contente por poder finalmente falar com alguém sem estar a tentar vender-lhe nada e o miúdo contente por finalmente ouvir alguém falar. Foi de tal ordem a cumplicidade nascida entre os dois que quando o caixeiro decidiu que era tempo de partir e com um pequeno grunhido pôs a mula a andar, o miúdo que sempre tinha vivido naquela a mais longínqua das aldeias lá para os lados da mais alta das serras do país, começou a andar ao lado da carroça primeiro sem pensar muito nisso e depois já decidido a ir para não mais voltar. Ao longe, de uma das janelas de casa o tio observava em silêncio. Vendo que para além do miúdo também o cão e o gato, este aparentemente a contragosto, se preparavam para ir embora, levantou-se e sacudiu como pôde algumas das camadas de poeira que cobriam a sua roupa e lentamente mas mesmo assim decidido saiu de casa sem se preocupar sequer em bater a velha porta de madeira. Ao percorrer pela última vez os únicos caminhos que tinha conhecido em toda a sua vida, os olhos do tio brilhavam e pela primeira vez desde há muito muito tempo ele estava finalmente feliz.

toca o telefone.

Pouso no sofá o prato com as cascas e os três quartos de maçã que ainda não comi e enquanto mastigo o outro quarto suspiro e levanto-me lentamente e também lentamente arrasto-me até lá e resmungo para dentro que há de ser um destes dias que hei-de deixar de ter telefone fixo.
-Estou?, digo eu num tom de voz neutro mas ainda assim notoriamente sensual;
-Boa noite. Quem fala?, diz uma voz feminina apenas e só neutra;
-Quem fala daí?, resmungo eu;
-É a Luísa e queria falar com o dono da casa;
-Qual é o assunto? digo eu enquanto tento disfarçar o facto de estar a ruminar os últimos pedaços do quarto de maçã;
-O assunto é para ser falado só com o dono da casa, responde a voz com um mal disfarçado enfado;
-Minha senhora, ou me diz qual é o assunto ou esta conversa acaba aqui, digo eu com voz de maçã fuji daquelas boas mesmo durinhas;
-Então boa noite, diz a gaja;
-Então boa noite, digo eu.

...

Com toda a suavidade de movimentos de que era capaz, rodou lentamente o corpo e sentou-se na berma da cama. Debaixo dos cobertores não se tinha dado conta do frio, teria vindo assim tão de repente?, que fazia no quarto. Estremeceu com um arrepio quando se levantou, nú, tentando habituar os olhos à quase penumbra do espaço. Tropeçou nos seus sapatos castanhos e tacteando encontrou logo ao lado o volume onde conviviam amarrotadas as restantes peças de roupa. Sorriu fugazmente, congratulando-se em silêncio por mesmo no calor do momento não se ter esquecido de atirar toda a roupa para o mesmo sítio. Um ligeiro estalido das molas da cama seguido por um leve, quase imperceptível movimento fê-lo parar por instantes. Foi assaltado por uma dúvida, será que ela estava mesmo a dormir ou simplesmente se limitava a fingir para não ter que lidar com ele?, que sacudiu no segundo a seguir com um encolher de ombros que denunciava que isso lhe era totalmente indiferente, desde que pudesse evitar o tremendo desconforto destes momentos. Abominava em especial a conversa de circunstância e a falsidade de falas e sorrisos e o peso ruídoso dos silêncios incómodos. Para quê dizer à mulher eu depois ligo-te ou havemos de ir jantar um destes dias? Se havia algo que tinha aprendido bem na vida, com aquela dose de dor suficiente para que nunca o pudesse esquecer, era que só vale a pena mentir a alguém se para nós for importante que essa pessoa acredite. Deu facilmente com a porta da rua e enquanto pensava que todas as mulheres solteiras que conhecera viviam em casas muito pequenas, saiu e chamou o elevador. Já na rua puxou as abas do casaco para cima e meteu as mãos nos bolsos e avançou, estugando o passo, decidido a enganar o frio que já sentia enquanto se esforçava por relembrar onde encontrar uma paragem de táxis. Um som estranho fê-lo virar a cabeça e a seu lado, sozinho no meio da rua deserta e mal iluminada pela fraca luz dos poucos candeeeiros que ainda funcionavam, um saco de plástico agitava-se ao sabor dos caprichos do vento. Sem saber muito bem porquê deixou-se ficar hipnotizado a observar o inesperado bailado. O saco estava em mau estado, furado e molhado e com as letras que tinha impressas num estado que quase impedia a identificação do supermercado de onde teria vindo. Parecia algo cansado. Apanhou finalmente um táxi e foi entretendo o motorista com acenos monossilábicos enquanto ele, satisfeito por ter encontrado um par de ouvidos, discorria livremente sobre um qualquer jogo de futebol. Só ao entrar em casa é que se lembrou que já não comia há um bom par de horas. Disse olá à gata, que se limitou a levantar ligeiramente a cabeça e a olhá-lo de lado quando ele ligou a luz, e abriu o frigorífico. Das prateleiras, apesar do vazio desconsolado que apresentavam, parecia mesmo assim emanar um cheiro algo desagradável, talvez dos restos da carne que a empregada (como era mesmo o seu nome?) tinha cozinhado na semana anterior?. Resignou-se a comer as 2 fatias de pizza que tinham sobrado do jantar de ontem e sentou-se no sofá e ligou a televisão e comeu tendo como companhia uma apresentadora americana, muito elegante nas suas calças de lycra e entretida a promover um creme para tirar a celulite do rabo. Desligou e apercebeu-se do seu reflexo a encará-lo a partir do ecrã da televisão. Com alguma surpresa constatou que aquele, seria mesmo ele?, parecia um homem cansado.

filosofia de bolso.

Não há nada mais ridículo que um homem a jogar futebol de tanga.

rejeição.

Fechou a porta com estrondo e encostou-se a ela como quem procura um abraço ou um ombro amigo. Dentro do peito o coração batia forte e rápido, como se pretendesse escapar daquela prisão, daquela dor, rompendo violento por costelas, esterno, derme e epiderme. Depois de ter cumprido um longo trajecto desde o canto do olho chegou-lhe à boca uma lágrima, solitária e triste, nem doce nem amarga mas sim com um leve travo a salgado. Inevitavelmente lembrou-se do gosto dos lábios dela, uma improvável mistura de limão, canela e maçã. Por mais que pensasse não encontrava resposta para as perguntas que sem descanso lhe martelavam a cabeça: porquê? o que correu mal? onde falhei? porra, será que falhei?Que não era culpa dele, tinha-lhe dito ela. Que lá bem no fundinho não era culpa de ninguém, que era óbvio que a relação não tinha rumo, não tinha futuro, vivia apenas do passado e estava imóvel, parada no tempo do presente como um velho sentado à beira da estrada a pensar no que já foi, mero espectador da vida dos outros. Que tinha por ele muito carinho, disserá ela sem se aperceber da mais que absoluta crueldade da expressão. Não conseguiu evitar um sorriso, no fundo um esgar de cinismo. Ele que durante anos sempre se fechara em copas, evitando ir a jogo, evitando o terreno minado das relações, tinha atirado o cuidado às urtigas e dado finalmente tudo de si, arrastado num torpor dormente, metade dor metade prazer, enfeitiçado por aqueles enormes olhos de preto azeitona, ao mesmo tempo límpidos e enigmáticos.Incoerências, contrasensos, irracionalidades várias.Os sinais estavam lá, pensava agora enquanto olhava para trás. Como era possível ter sido vaidoso ao ponto de presumir que poderia conter numa redoma toda aquela alegria, aquele sentido de humor e sorriso imparáveis, cheios de promessas, cheios de calor? Tinha-se resumido tudo a uma luta inglória com um final tão previsível que nem sequer se podia dizer surpreendido. Quantas vezes tinha assistido a situações destas, confortavelmente instalado no seu habitual posto de atento observador, seguríssimo no seu papel de ombro amigo para as horas más, fiel porto de abrigo. Onde estava agora toda a confiança, a calma que demonstrava quando arrogantemente aconselhava os outros? Idiota.As frases feitas, os muitos peixes do mar, o tempo que tudo cura, de que lhe serviam agora, no meio da baba e do ranho? Idiota.Como um autómato serviu-se de um copo generoso de whisky que tragou com um gole. Bebeu outro e ainda mais outro, numa patética tentativa de conquistar um estado de ausência, um não estado onde tudo aquilo não existisse pelo menos durante um par de horas. Onde ela não existisse. Nem os olhos, nem o sorriso, nem as mamas, nem aquela boca e aquela língua. Deu consigo a masturbar-se, de raiva e de despeito. Só quando se veio, mecanicamente, cansado e banhado em lágrimas, é que constatou que o lhe doía não era estar novamente sozinho. O que lhe doía ao ponto de o queimar por dentro era a profunda certeza de que iria sempre gostar dela.

14.1.09

reflexão exagerada no número de carateres usados mas valorizada por ter mais ou menos a meio três fotos da deborah secco

nos dias que correm uma da disciplinas mais em voga é a da comunicação, o que se pode constatar pelo absurdo número de manuais de auto ajuda presentes nos escaparates (palavra que merecia ser usada mais vezes...) e que prometem fazer do eventual e incauto leitor um ás na difícil arte de se fazer entender por outrém. vem isto a propósito de um post anterior cujo conteúdo principal volto a reproduzir aqui para facilitar a compreensão do que seguidamente se irá expor.



ora qualquer indivíduo portador de preconceito de base cultural ou social que aplique sobre o fenómeno do futebol poderá olhar para a mensagem que aqui se transmite e esboçar um sorriso que nascerá de uma amálgama composta pela apreciação inerente à ironia da frase e ao interessante uso do conceito de insulto na forma de uma questão e à curiosa gramática da coisa e ainda à evocação de imagens associadas a uma das personagens referidas, imagens essas que novamente num espírito de facilitar a compreensão do exposto passo a exemplificar:








ora como de entre os muitos conceitos de que eu sou portador, sendo que alguns caiem claramente na categoria de pre- e outros são mais tipo pós-, não faz parte esse a que aludi anteriormente sobre o futebol, esta imagem e agora refiro-me à primeira e por maioria de razão não à segunda nem à terceira nem sequer à quarta, sugere-me que o indivíduo ou indivíduos que a elaboraram longe de ser ou serem meros grunhos sem nada de jeito para fazer são antes atentos estudiosos da tal arte da comunicação, teoria abstrusa mas pertinente que passo a explicar decompondo em partes o todo:
ROGER, - começam eles identificando com apreciável sucesso o destinatário da mensagem, o que é de capital importância para a eficácia pretendida com a mesma e representa o be-à-bá do bom comunicador.
SE TU É CAPAZ DE COMER A DEBORAH SECCO, - prosseguem com uma primeira afirmação ao nível gramatical da sarah palin mas cujo génio se baseia na sua veracidade factual de todos bem conhecida e ainda na capacidade de reter totalmente a atenção do leitor por levar de imediato o seu consciente para algumas das imagens já expostas, no caso a segunda e a terceira e a quarta.
É CAPAZ DE FAZER UNS GOLS, NÉ, FILHO DA PUTA?, - concluem os excelsos autores deixando a pairar na estratosfera mediática uma pergunta que contém em si mesma não só uma óbvia vertente retórica mas também uma exortação à prossecução de uma acção. Atente-se ainda na utilização da técnica do reforço positivo ao destinatário da mensagem que vê a sua auto-estima reforçada por ser o único na equipa a merecer esta distinção e de forma mais significativa por ver relembrada a sua condição de presumivelmente único comedor da deborah secco.
Darei por finda esta duvidosa reflexão não sem antes salientar dois elementos constantes da dita cuja mensagem que por estarem repletos de uma apreciável dose de machismo subjacente são consequentemente merecedores de crítica: o questionável e diga-se mui duvidoso papel de objecto passivo atribuído à deborah secco e a referência gratuita e largamente desnecessária à eventual ocupação profissional da mãe do destinatário.
O facto de as convenções sociais modernas ditarem que mais uma vez o pai do dito destinatário tenha sido incompreensivelmente ignorado será objecto de análise posterior, talvez num dia com temperatura exterior mais amena e menor risco de pluviosidade.

à conversa com uma mulher de 70 anos.

"A minha avó dizia para olhar sempre com atenção para a cara do marido quando ele entrasse em casa. Se vinha chateado, aconselhava-nos a fazer duas coisas: primeiro devíamos encher a boca de água, isto para não correr o risco de dizer algo que o irritasse, e depois devíamos esconder da vista ou pelo menos arrumar para um canto qualquer banquito que houvesse na cozinha, isto para não correr o risco de levar com ele nas costas."
Antes de se ir embora, ainda se ria bem disposta quando disse:
"ah eu digo estas coisas mas a verdade é que com esta barba tão forte eu podia bem ser homem".

seinfeld.

Elaine à conversa com uma colega de escritório sobre orgasmos,

- ei, Renee, let me ask you something. have you ever, you know, faked it?
- yeah, sometimes.
- really, like when?
- like if we went to a Broadway show...if we had really good seats.
- yeah, well...
- ah, like, you know, if it's enough already and i just wanna get some sleep.

cortar o cabelo.

Parte III- Onde a saga chega ao seu final, não sem antes ter um clímax apropriado.

Em meados do corrente mês o inevitável aconteceu, leia-se que o crescimento da melena chegou ao ponto de se tornar incomodativa e ocasionalmente já me obrigar a fazer aquele gesto tão típico do Nuno Gomes de ajeitar a bela da madeixa atrás da bela da orelhinha. Assim sendo, lá me decidi a voltar novamente ao local do crime. Menos inquieto mas ainda não à vontade, eis que pela 2ª vez na vida entrei no dito estabelecimento que nesta ocasião estava quase vazio. Havia uma cabeleireira (a minha!, expressão que nunca pensei vir a usar), um funcionário encarregue da lavagem dos cabelos (o já referido T.), uma estagiária em formação e uma cliente. A cabeleireira estava à conversa com a cliente e quando me viu ao balcão chamou o T. para me atender, assim comprovando o célebre ditado de que ninguém foge ao seu destino, ou na tétrica versão da família G., quem tem de morrer de um tiro não morre de uma facada. Como se de um filme de série B se tratasse, eis que surge então o momento por todos já adivinhado (pelo menos por aqueles se deram ao trabalho de seguir a série desde início), em que iria ser posta à prova a viril masculinidade deste amigo que ora vos escreve, um criado ao vosso dispor.Começámos logo à grande, visto que em resposta à dose extra de vigor e de desbragada testosterona que propositadamente coloquei na minha metade do aperto de mão, o T. respondeu com um estilo de mão morta, viscosa e mole, que me deixou na dúvida se a ideia seria apertá-la ou osculá-la. Bom, mas passemos à frente…Tal como temia, o passo seguinte foi a lavagem do cabelo. Enquanto a cadeira em que me sentei se reclinava e lentamente dava instruções às suas molas para que me começassem a massajar as costas, cumprindo deste modo os desígnios do seu criador, ocorreram-me de forma quase simultânea 2 pensamentos:O primeiro - que tanto a A. como outras amigas mulheres já me tinham dito que Ah, o T. é fabuloso! Aquelas mãos, aquela massagem…é quase orgásmico…;O segundo: - aquele episódio do Seinfeld em que o George (claramente a personagem mais interessante) andava angustiado com medo de ser um homossexual reprimido porque tinha ido a um massagista e sentiu movimento lá por baixo (acho que as palavras dele foram I think it moved).Animado por estas ideias e contrariamente ao usual aumento do peristaltismo intestinal vulgo vontade de cagar, que normalmente me acompanha numa situação de grande stress, fui literalmente assaltado por um violento ataque de riso que consegui controlar fincando, sem remorso ou piedade, os dentes superiores no lábio inferior. Alheio ao drama que se desenrolava, o T. continuava o seu trabalho. Diga-se por ser verdade, e também porque eu posso ser parvo e ter a mania que até tenho piada mas na realidade não sou homofóbico, que o tipo sabe da poda e tem de facto umas boas mãos. Mesmo assim, e após mais ou menos 300 segundos que me pareceram uma eternidade, a lavagem/massagem capilar lá acabou e eu lá me levantei da cadeira. Posso anunciar com indisfarçável orgulho, extrema felicidade e evidente alívio que passei incólume por este momento de provação. Não houve nenhum tipo de movimento lá por baixo. Nada. Zero. Niente. Nem uma agulha buliu na quieta melancolia dos pinheiros do caminho. Mais uma vez peço que compreendam que a alegria sentida não tem nada de homofóbico, apesar do meu longo historial de cinismo gratuito para com o fenómeno do rabetismo galopante que vem assolando a nossa sociedade. A questão é que com 30 anos, casado, pai de família e com cada vez mais contas para pagar, confesso que não tenho nem vida nem paciência para descobrir que olha, olha, afinal sou gay. Não seria propriamente o fim do mundo, convenhamos que seria pior descobrir uma súbita vocação para padre ou uma vontade incontrolável de aderir ao PP, mas que iria dar uma carga de trabalhos lá isso iria.Para finalizar acrescento que o corte de cabelo em si não merece que com ele se perca muito tempo, mas ainda assim não deixou de ter o seu quê de incomodativo. Nos idos tempos das idas ao barbeiro, um tipo ou naturalmente falava de futebol ou naturalmente estava calado, sem que passasse pela cabeça do cliente e do barbeiro sentirem-se incomodados com eventuais momentos de silêncio. Aqui não. A cabeleireira está firmemente convencida que é essencial para a qualidade do atendimento que não haja tempos mortos. É preciso falar. Sobre o tempo, sobre a família, sobre o que for, mas é forçoso que o cliente não se aborreça. Como não tive a lata de lhe dizer olhe lá, eu até agradeço a sua simpatia e tal e coisa mas o que gostava mesmo era que se calasse um bocadinho para eu poder ler o meu jornal, fui obrigado a levar com uma ensaboadela de 20 minutos de conversa de circunstância de sentido único, que fui interrompendo com os ai sim e os pois é que julguei essenciais para não fazer figura de mal criado. Contrariamente ao que alguns poderiam esperar, não há lugar nesta história para madeixas, extensões, brushings (?) ou frisanços de cabelo. No fundo, ir ao estabelecimento é como ir ao barbeiro, só que com muito mais higiene.De cabeça bem levantada e com as mãos naturalmente no prolongamento dos braços, por sua vez masculamente colocados ao lado do tronco, abri a porta e saí.

13.1.09

cortar o cabelo.

Parte II- Onde se fala da visita e se dá conta das sensações vividas. Onde se introduz na trama a personagem T.

Entrei no dito cabeleireiro, que doravante designarei como o estabelecimento, que é um termo mais neutro e não mexe com a minha já de si debilitada e ferida masculinidade. Ora então, já dentro do estabelecimento, dei por mim dirigindo-me para o balcão de atendimento, como um touro para a lide que desconhece ou um inocente a assobiar para o cadafalso. Parei e olhei em volta. Para início de conversa tudo o que era expositores e estantes estavam cheios de produtos como rimels (?), batons, ceras depilantes, geles fixantes e outras merdices tais. Como se isto já não fosse suficiente o estabelecimento estava cheio de mulheres. Havia altas e baixas e magras e gordas. Havia adolescentes e mulheres em idade parideira e mulheres pós-menopaúsicas com cara de fãs do Júlio Iglésias. Havia uma criança, também ela do dito cujo sexo, que corria impaciente de um lado para o outro espalhando as suas barbies(?) ao deus dará. Havia uma noiva, santo deus. Mulheres a fazer madeixas, mulheres a fazer permanentes, mulheres na manicure, na secagem do cabelo e enroladas em papel de prata como se fossem um legume no frigorífico. Lia-se a Caras, a Vogue, a Nova Gente, as televisões estavam todas sintonizadas no canal Fashion. Falava-se de roupa, de cabelo, de estilos de cortes e de produtos capilares. Estavam todas a olhar para mim. Todas! Até mesmo as que estavam aparentemente de costas. Elas disfarçavam daquela forma que só as mulheres conseguem disfarçar, mas eu, marinheiro viajado no imprevisível e tormentoso oceano que é a psique feminina, sabia que era o foco das atenções. Mas de uma forma negativa, como se tivesse arrotado à mesa num jantar de gala ou dado um sonoro traque no meio duma qualquer aula.Estranhamente, não parecia haver cabelos no chão. Não havia jornais desportivos, não se ouvia falar alto, ninguém discutia a arbitragem do jogo anterior, o próximo reforço ou o eventual despedimento do treinador. Até me ofereceram um café. Estabelecimento unisexo? Nem por sombras. Era eu contra o mundo. Bom, em abono da verdade era eu e o T. O T.! Como classificá-lo sem incorrer num excesso de homofobia? Metrosexual, mas daqueles que gosta de homens? Maneirento? Demasiado cheiroso e claramente sobre-penteado? Saiu do armário, saltou a vedação, virou boiola, emveadou? Bom, deixemos o T. tranquilo por algumas linhas. Ele voltará. Esta 1ª visita (sim, sim, é verdade que já lá voltei…) não terminou sem que antes me tivessem tirado uma foto. Sal na ferida, meus amigos, sal na ferida. Sorria, disse ela quando viu a minha cara de parvo a olhar para a máquina. Tentei, ou pelo menos tenho a vaga noção que os meus músculos se contraíram com essa intenção. Ela disse que tinha ficado muito bem. Não era preciso. Uma imagem vale mesmo muitas palavras, mesmo que não sejam mil, e afinal a máquina só apanha o que tem à frente.Como o difícil já estava feito, mergulhei de cabeça nesta nova experiência e dei o passo que me faltava. Comprei produtos! Um frasco de fortificante para aplicar de pipeta antes de deitar, vulgo estrume capilar, ao módico preço duma bela garrafa de vinho tinto e um champô ideal para o meu couro cabeludo. Suspirei fundo, cansado por este excesso de contacto com o meu lado feminino. De mãos nos bolsos e algo cabisbaixo, abri a porta do estabelecimento e saí. Cá fora estava sol.

12.1.09

cortar o cabelo.

Parte I- Onde se explica e contextualiza a coisa, e onde se levanta o véu sobre o que se vai seguir...

Durante grande parte da minha vida cortei o cabelo no Salão Luso, uma barbearia só para machos que ficava lá perto de casa. Desde cedo me comecei a habituar a ir sozinho. Chegava, alapava o cú no sofá, escolhia o desportivo que estivesse disponível e mal abria uma vaga em qualquer um dos 3 tipos que lá trabalhavam lá ia eu. Quando me perguntavam e então jovem como vamos cortar? eu, pequenino e ladino, respondia sempre da mesma maneira: curto mas não demasiado. Durante os anos da adolescência e do acne juvenil tive vontade de rapar o cabelo como os tropas que ia vendo em esporádicas viagens de comboio ou enquanto andavam à cata das melhores prostitutas nas esquinas da zona, mas quando me sentava e abria a boca para dizer ao que ia saia-me o mesmo curto mas não demasiado de sempre. Já depois de sair da faculdade, homenzinho feito, casado de papel passado e tudo, quis o destino (e a minha mulher) que nos instalássemos noutra cidade, o que inevitavelmente contribuiu para me livrar do hábito/vício que era o Salão Luso. Assim sendo, numa atitude que teve tanto de coragem como de estupidez natural, pedi emprestado ao P. a sua máquina de cortar o cabelo. Confesso que ainda tive vontade de me auto-tosquiar, assinalando devidamente o meu capilar Grito do Ipiranga, mas acabei por ter juízo e pedi à A. que fizesse as honras. Aqui chegados, diga-se eufemisticamente falando que a coisa não correu bem. Inexperientes na difícil arte do manejo da dita roçadoura, nem eu nem a A. nos apercebemos que o corte estava a ser efectuado com a maquineta ao contrário, ou seja, sem as protecções e sem respeitar o tamanho desejado. O facto de imediatamente após o 1º contacto da máquina com o meu cabelo, a A. ter soltado um ai o que é que eu fiz? não augurava nada de bom e de facto, apenas 20 minutos depois e já com a entrada em cena da C., chamada qual 112 para tentar remediar o irremediável, eu tinha à minha frente no espelho da casa de banho um gajo com umas orelhas tipo dumbo e com uma semelhança gritante entre o tamanho da barba e do cabelo. Enfim, um ovo, um melão, um verdadeiro pêssego careca.A verdade é que me habituei rapidamente ao novo estilo. Nunca estava despenteado, deixei de gastar dinheiro em champô e não havia caspa, piolho ou lêndea que me chegasse. Até que em Fevereiro do ano da graça de 2006 cedi finalmente a pressões de todos os quadrantes para que deixasse de me tosquiar e recorri pela primeira vez em 30 invernos (porque carga de água é que se há de dizer sempre primaveras?) a um cabeleireiro. Unisexo sim, mas cabeleireiro ainda assim. Engolindo em seco e ignorando aquela irritante vozinha, que todos os machos embebidos num espírito testosterónico ouvem, e que me dizia olha que isto é coisa de gajas ou de metrosexuais com dúvidas, olha que por este andar ainda acabas a cagar de esguelha…, lá fui cabisbaixo e de mãos nos bolsos.(continua…)

11.1.09

vg


"and when no hope was left inside on that starry starry night you took your life as lover's often do but I could have told you,Vincent,this world was never ment for one as beautiful as you"

o melhor conselho.

É verdade que há momentos na vida em que nos falta algo, mas se há coisa sempre presente e normalmente em abundância é gente pronta a dar conselhos.Começando logo na altura em que cambaleantes nos atrevemos a tentar os primeiros passos e cuidado não caias cuidado olha o degrau, passando pelas primeiras refeições do come a sopa para ficares com os olhos bonitos e pela escola com o estuda se queres ser alguém na vida, a realidade nua e crua é que passamos a vida a ser bombardeados com conselhos. O percurso em si é fácil, a dificuldade é decidir quais os que devemos seguir.À medida que os anos avançam e nós naturalmente crescemos os conselhos naturalmente crescem connosco e tal como as pessoas que os dão são de todas as formas e feitios. Olha para a esquerda e para a direita antes de atravessares de preferência nas passadeiras evita as más companhias não fumes não bebas não conduzas se beberes usa sempre preservativo. Faz como te digo se fosse a ti tu é que sabes mas olha que eu... tanto podem representar genuína preocupação com o nosso estar bem como simplesmente um lavar de mãos um bom agora se fizeres asneira a culpa é só tua que eu já disse o que tinha a dizer.Para mim, que agora só recebo conselhos olha que o bébé isto olha que o bébé aquilo, o melhor que já recebi foi me dado acabado de cumprir 18 invernos só para não dizer sempre primaveras por um tipo cujo nome já não recordo mas que exercia aquela função essencial na vida de qualquer aspirante a adulto, a nobre se bem que muitas vezes pouco valorizada posição de instrutor de condução. Disse-me ele que só parava de falar para respirar Sr. André sim porque apesar de ele ter mais de 60 anos e eu só 18 sempre me chamou Sr.André mas dizia eu ou melhor dizia ele Sr.André e prometo que é desta vez que conto o que ele dizia o Sr. nunca se esqueça disto que lhe vou dizer, o maior perigo na estrada e na condução não são os velhos nem as mulheres, o maior perigo são os condutores de chapéu ou de boina, opinião que 12 anos e muitos milhares de quilómetros depois eu partilho subscrevo e transmito agradecido.

saudades.

Há espaços que farão sempre parte da minha pequena história de vida. Na minha cidade, o Porto, sim porque onde quer que viva a minha cidade será sempre essa, o Porto, onde nasci e cresci e onde conheci praticamente todas as pessoas que são mais importantes para a minha vida salvo poucas e honrosas excepções, há vários locais que nunca poderei esquecer.O infantário Luzinha, na zona da Areosa com os seus setters que uma vez se soltaram criando o pânico nas educadoras e a alegria na miudagem. A escola pública nº 37 em Costa Cabral, com aquela árvore fabulosa, cuja espécie na altura não sabia e agora também não, a comandar todo o recreio e com a Professora Manuela a acabar todos os dias de aulas connosco em fila indiana à espera da réguada da praxe e em que quem tirasse a mão a tentar fugir ao castigo levava a dobrar, e com o meu avô, que tinha as mãos grandes e pêlos a sair do nariz e das orelhas e a quem nós os netos sempre chamámos Moura e nunca avô e de quem eu não me lembro muitas vezes mas quando me lembro sinto uma saudade tão grande que me apetece chorar, a ir-me buscar pela mão ao fim da manhã. A mítica Augusto Gil, onde fiz o ciclo e onde conheci os meus amigos, daqueles que são para toda a vida, e a senhora do quiosque ao lado a vender chicletes e rebuçados, e os gelados Neveiros, do grande portão verde de garagem no caminho de volta à casa no Verão, que se derretiam na boca e não nas mãos. O Vigorosa, onde para além de ténis se jogavam sonhos, com o Zé Rato que nos ensinava mas que tinha aprendido a jogar sozinho contra a parede e para além disso tocava bateria no programa da manhã da RTP, e onde sem eu nunca ter percebido porquê alguns não me tratavam pelo nome próprio como seria apropriado mas sim por ò Moura e Sá. A escola Aurélia de Sousa, o meu liceu onde entrei ainda miúdo sempre vestido de fato de treino e sapatilhas e saí quase homem daqueles que já têm de fazer a barba e tudo. O Lima 5, o meu café onde entrava de manhã e sem ser preciso dizer nada o Sr.Fernando sempre bem disposto ou o Sr.Lemos com o seu bigode farfalhudo a tentar esconder o dente que lhe faltava ou o Sr.Amadeu que não me dava tanta confiança me traziam a meia de leite directa e bem escura e a torrada do costume, e onde nas tardes de estudo em que a meio para alimentar os neurónios e sacudir a neurose pedíamos uma francesinha e bebíamos um fininho, o que não ajudava muito o estudo mas porra uma francesinha pede um fininho e não mariquices como sangrias ou coca-colas. O Estádio das Antas aos domingos à tarde, com o meu pai e o meu irmão e os meus primos e o meu avô que durante o jogo inteiro nos ia dando rebuçados S.Brás daqueles que sabem bem mas fazem mal aos dentes...Podia se calhar falar de outros e de mais lugares e de mais pessoas que nada será capaz de apagar, mesmo que agora já não existam como os gelados Neveiros do grande portão verde ou o lima 5 que virou churrasqueira especializada em frango à guia, ou as Antas que morreram para dar lugar a outro estádio mais novo, mais bonito mas necessariamente mais pobre em histórias e sonhos. Podia falar do Cinema Batalha, cujo anúncio de reabertura me motivou a escrever este post e onde ainda no início dos anos de adolescente vi pela primeira vez o Cinema Paraíso, num domingo de manhã de sessão cineclubista em que as lágrimas me corriam imparáveis pela cara abaixo. Podia falar da Ribeira e da Foz e do Parque da Cidade e de Serralves, ou da sensação de "quem vem e atravessa o rio, junto à Serra do Pilar...", mas não teria muito mais a acrescentar ao que já disse e ao que sinto pela minha cidade, o Porto.
P.S.- ainda relativamente à reabertura do Cinema Batalha, tencionava falar sobre a inigualável D.Laura, sobre Rui Rio e sobre o milhão de contos que "arrancaram" ao Grupo Amorim aquando da polémica do plano de pormenor das Antas, mas comecei a pensar na minha cidade,o Porto, e no quanto gosto dela, e perdi a vontade de abordar coisas menos importantes.

filosofia de bolso.

Há uns meses constatei que às vezes quando sou eu próprio, sou um bocado impróprio.Voltando a debruçar-me sobre o assunto, concluo que pior que ser às vezes inconveniente é ser sempre conveniente. Tipos destes ou são hipócritas ou são totalmente desprovidos de interesse.

10.1.09

e o que foi não volta a ser.

Nos últimos 20-25 anos muita coisa mudou politicamente em Portugal.Começamos por entrar na CEE que era a 12 países e depois virou UE e era a 15 e depois chegou Maastricht e depois o espaço Schengen e depois foi-se o escudo e veio o euro e depois foi-se Macau mas nasceu Timor e depois a UE passou a 25 e há de passar a 26 e 27 e por aí fora...
Muita coisa mudou também no nosso imaginário colectivo, do qual foram desaparecendo algumas referências fundamentais que agora perduram somente num lugar mais ou menos recôndito da memória. Sem nenhuma preocupação de ordem cronológica e só com alguma preocupação com a verdade dos factos podemos dizer que: foi-se o restaurador olex e o preto com carapinha loura, caiu em desuso a pasta medicinal couto, a bolacha maria e o pudim boca-doce, os gelados de gelo a 20$, as infindáveis cadernetas de cromos de tudo e mais alguma coisa, os jogos sem fronteira, a música inicial de ligação à Eurovisão, o nils holgersson a heidi e os marretas,o 70*7, o 1-2-3, o verão azul (com o chanquete, a béa e acima de tudo e de todos el pirãna), os 3 duques, a galáctica o bonanza e o anjo na américa, o quem sai aos seus o sim sr ministro, o duarte e companhia (deus meu!!!) o tal canal e o inesquecível zé gato com aquela música fabulosa que aposto estão a trautear... Foi-se a amália e o fialho, o zeca o paredes o variações os táxi e a chiclete os trovante os 7ª legião os heróis do mar e até o gajo do duo ouro negro, o salgueiro maia o avião em camarate e o sá carneiro e a snu com ele, o zenha o sousa franco o cunhal e a pintasilgo, foi-se a irmã lúcia o joaquim agostinho e até a sofia (como lhe chamam os muito cultos). Cairam pontes e viadutos, foram-se a pesca a frota a agricultura e as fronteiras, a lisnave e a sorefame, foram o cavaco e o soares e agora voltam a ser... foi-se a expo e o euro...Foram-se os dedos os anéis e o bébé com a água do banho...E o que ficou?...